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segunda-feira, 21 de abril de 2025

Mudanças

          Diz uma velha história que, ao passear por uma pequena floresta, um filósofo e seu discípulo se depararam com um sítio de aparência miserável, cujos donos - um casal e seus três filhos - viviam em situação de grande pobreza. Indagado sobre a forma de prover o sustento à sua família, o dono do lugar explicou que toda a renda conseguida vinha de uma vaquinha: uma parte do leite produzido diariamente era vendida ou trocada na cidade vizinha por outros tipos de alimentos, enquanto o restante era transformado em queijo, manteiga e etc., para consumo próprio. Agradecendo as informações, o filósofo se pôs novamente a caminho mas, antes de deixar a propriedade, ordenou ao seu discípulo que jogasse a vaquinha num precipício ali perto. Surpreso, o rapaz tentou argumentar que o animal era a única fonte de renda da pobre família; o filósofo nada retrucou e assim, sem escolha, o discípulo cumpriu a ordem. Durante dez anos, aquela cena o perseguiu implacavelmente, trazendo-lhe um remorso tão profundo que ele decidiu retornar ao sítio e contar tudo à família, oferecendo-lhes ajuda financeira, inclusive. Chegando ao local, constatou uma incrível mudança: a propriedade havia se transformado num pedaço do Paraíso, em nada lembrando o casebre miserável que ele conhecera. Aflito, o rapaz imaginou que, com a perda da vaquinha, a pobre família fora forçada a vender o sítio, e aquilo lhe doeu profundamente. Um pouco adiante, porém, encontrou o senhor que conhecera tempos atrás, sendo reconhecido e tratado com amabilidade. O ex-discípulo, então, quis saber como se operara tão extraordinária mudança na vida de todos ali, e o dono do sítio explicou que, com a morte da vaquinha, ele teve que plantar ervas e legumes para sustentar a família, cortar madeira para vender, plantar árvores para repôr as que foram derrubadas, cultivar algodão para vestir os filhos... Depois de um ano difícil, ele se viu exportando os produtos que plantara, a vida seguiu seu curso e o sitiante, finalmente, se deu conta de que possuía um enorme e, até ali, desconhecido potencial, descoberto graças à perda da vaquinha, que ele fazia questão de agradecer.
          Você já parou para pensar que isso acontece todos os dias em nossas vidas? Apego, conformismo, "zona de conforto", medo do desconhecido.Os nomes são muitos, mas o resultado é um só: estagnação! Você não gosta do seu emprego e tem vontade de partir para um negócio próprio, mas tem receio de não conseguir e desiste antes mesmo de qualquer tentativa. Ou está num relacionamento sufocante, mas segue a velha máxima do "antes só do que mal acompanhado", por medo da solidão. Acha que se daria bem num curso de teatro, mas nem cogita em matricular-se porque parentes e amigos vão dizer que você está velho (a) demais para isso.
 A vida é movimento e exige mudanças. Algumas grandes, outras sutis. Mudanças radicais, rompimentos totais, guinadas definitivas. Você não precisa pular de paraquedas nem mergulhar com tubarões, mas um corte de cabelo, em certos casos, pode ter um efeito semelhante m sua vida. Não tenha vergonha de tentar, de ousar, de sonhar. Viva, mude, experimente, porque o bonito da nossa passagem por aqui é justamente ser diferente.
 E então? De qual "vaquinha" você está precisando se desfazer hoje?


                                                                                                                         Pense nisso.


domingo, 31 de janeiro de 2016

"A Respeito de seu Filho"

Seu filho é abençoado aprendiz da vida. Não lhe dificulte a colheita das lições, fazendo-lhe as tarefas.

Seu filho é flor em botão nos verdes ramos da existência. Não lhe precipite o desabrochar, estiolando-lhe a vitalidade espontânea.

Seu filho é discípulo da existência. Não lhe cerceie a produtividade, tomando sobre seus ombros os misteres que lhe competem.

Seu filho é lâmpada em crescimento de luz. Não lhe coloque o óleo viscoso da bajulação para que não afogue o pavio onde crepita a chama da esperança.

Seu filho é fruto em formação para o futuro. Não procure colher, antes do tempo, o benefício que não lhe pertence.

Lembre-se, mãe devotada que você é, que o seu filho também é filho de Deus.

Você poderá caminhar ao seu lado na estrada apertada, mas ele só terá honra quando conseguir chegar ao objetivo conduzido pelos próprios pés.

Você tem o dever de lhe apontar os abismos à frente; mas a ele compete contornar os obstáculos e descer às baixadas da existência para testar a fortaleza do próprio caráter.

Você deve ministrar-lhe o sustento do Evangelho; mas a ele compete o murmúrio das orações, na prece continuada das ações nobres.

Seu filho é o discípulo amado que Deus pôs ao alcance do seu coração enternecido, no entanto, a sua tarefa não pode ir além daquele amor que o Pai propicia a todos, ensinando ao tempo, corrigindo na luta, e educando através de disciplina para a felicidade.

Mostre-lhe a vida, mas deixe-o viver.

Fale-lhe das trevas, mas dê-lhe a luz do conhecimento.

Mande-o à escola, mas faça-se mestra dele no lar.

Apresente-lhe o mundo, mas deixe-o construir o próprio mundo.

Tome-lhe as mãos e ponha-as no trabalho, ensinando com o seu exemplo, mas não lhe desenvolva a inutilidade, realizando as tarefas que lhe competem.

Seu filho é vida da sua vida que vai viver na vida da Humanidade inteira.

Cumpra o seu dever amando-o, mas exercite o seu amor ensinando-o a amar e fazendo que no serviço superior ele se faça um homem para que o possa bendizer, mais tarde.

Ame, em seu filho, o filho de todas as mães e ame nos filhos das outras o seu próprio filho, para que ele, honrado pelo amor de outras mães, possa enobrecer o  mundo, amando outros filhos.

Seu filho é semente divina; não lhe negue, por falso carinho, a cova escura da fertilidade, pretextando devotamento, porque a semente que não morre jamais será fonte de vida.

Mãe! Seu filho é a esperança do mundo; não o asfixie no egoísmo dos seus anelos, esquecendo-se de que você veio à terra sem ele e retornará igualmente a sós, entregando-se a Deus consoante as leis sábias e justas da Criação."

Amélia Rodrigues

(Fonte: Crestomatia da Imortalidade, de Divaldo Pereira Franco - espíritos diversos)

Extraído do Jornal Note Bem, uma publicação do Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes de Santo André - SP (edição 76 - Abr/Mai/Jun 2015 - página 04)

O Ontem que se Reflete Hoje

"Desculpe!
Não é esse o meu ofício.Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar, se possível, judeus, gentios, negros e brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim.
Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para o seu infortúnio.
Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A Terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da Liberdade e da Beleza, porém nos extraviamos.
A cobiça envenenou a alma do homem, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que máquinas,precisamos de Humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal e à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora, milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas e vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.

Aos que podem me ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia e da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano.
Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a Liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais, que vos desprezam, que vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas e que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!
No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem, não de um só homem ou um grupo de homens, mas no coração de todos eles! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder, o poder de criar máquinas.
O poder de criar felicidade!

Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela e de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto, em nome da democracia, usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo e um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar um fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.

Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz!

Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a Luz da Esperança.

Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!"

(Fonte: Discurso de Charles Chaplin em O Grande Ditador, filme de 1940)

Extraído do Jornal Note Bem, uma publicação do Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes de Santo André - SP (edição 76 - Abr/Mai/Jun 2015 - página 06)

Diante do exposto, muito pouco a acrescentar.
Que cada um de nós reflita sobre esse texto, tão atual.
Que as autoridades mundiais leiam e releiam cada linha, até que a Verdade que nelas se encerra fique indelevelmente impressa em suas almas, mentes e corações, abrindo seus olhos para aquilo que tantos ignoram ou simplesmente se recusam a ver.
E que essas mesmas linhas, obra admirável de um grande gênio, possam, num futuro não muito distante, ser a mais pura expressão de uma nova Realidade.

                                                                                                                   Pense nisso.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

"Um Dia Você Aprende"

"Depois de algum tempo você aprende a diferença. a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar a alma. Aprende que não significa apoiar-se que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas. Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não a tristeza de uma criança.

Depois de algum tempo você aprende que o sol queima, se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...  E aprende que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoar-lhe por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundo para destruí-la. Que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longa distância. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendermos que os amigos mudam... Aprende a perceber que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa; por isso, sempre devemos tratar as pessoas que amamos com palavras amorosas. Pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm muita influência sobre nós, mas... nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não deve comparar-se com os outros, mas com o melhor que se pode ser... Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser e que o tempo é curto.

Aprende que não importa aonde já chegou, mas para onde está indo. Mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Com o tempo você aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão. E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade pois, não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes as pessoas que você espera que o chutem, quando você cai, são as poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que quantos aniversários você já celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supõe. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens. Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva, tem o direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo que pode. Existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que, com a mesma severidade com que julga, você será um dia condenado.

 Aprende que não importa em quantos pedaços o seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar atrás; portanto,  plante seu jardim e decore sua alma,em vez de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar. Que realmente é forte e que pode ir mais longe, depois de pensar que não se pode mais.

E que a vida tem valor e você tem valor diante da vida! Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, não fosse o medo de tentar."

(autoria atribuída a William Shakespeare)

sábado, 4 de janeiro de 2014

Destino

"Ano Novo, vida nova!"
Há quantos anos a gente ouve essa mesma frase, dita com mais ou menos ênfase? Jovens, velhos, homens, mulheres, personalidades públicas ou ilustres desconhecidos: todos, sem exceção, trazem um brilho de esperança no olhar e um "assim seja" impresso na voz toldada de emoção ao evocar as palavras quase mântricas. Meu pai costuma dizer que, se o ano não puder ser melhor, que seja pelo menos igual ao que acabou, "porque já sabemos como vai ser".
É claro que todo mundo deseja um ano maravilhoso, com mais dinheiro, saúde, prosperidade, metas atingidas e muitos sonhos por realizar. Ter uma vida plena, sem (muitas) preocupações e cheinha de oportunidades é o desejo da maioria dos meros mortais desse nosso planeta, inclusive eu, mas aí entra em cena o tal Destino.
Destino, fatalidade, carma, desígnios celestes, vontade de Deus, aquilo que está escrito. Qualquer que seja o nome atribuído, parece algo completamente fora de nossa alçada e sobre o qual não temos a menor possibilidade de controle. Mas... será mesmo?
Se eu estivesse num ônibus, por exemplo, e a imprudência do motorista causasse um acidente, não seria minha culpa (a não ser que eu fosse conversando com ele, distraindo-o e provocando o desastre - felizmente, não corro esse risco, porque ninguém puxa papo com "dragão"...); por outro lado, se eu estivesse dirigindo um carro, poderia ou não ser a responsável pelo ocorrido.
As religiões e filosofias de vida têm visões bem diversificadas acerca do dito Destino. Enquanto algumas creem que já está tudo devidamente marcadinho no livro de Deus e que não há nada a ser feito (dizem que ninguém muda a Sua escrita. Afinal, Ele não precisa de conselhos sobre como dirigir a própria obra, né?, especialmente conselhos do bicho Homem, tão inferior e imperfeito diante do Criador), outras pregam que nós somos os responsáveis por tudo o que nos acontece (até mesmo por uma simples topadinha num paralelepípedo. Também, quem mandou você caminhar enquanto teclava no celular pra curtir as postagens do Face, criatura? Quer arrancar a joanete de graça, é?). Ou seja, ou somos isentos de toda culpa e nossa vida é entregue a outras mãos, ou somos os irresponsáveis causadores das mazelas humanas, tanto pessoais quanto universais.
Também há, claro, quem fique no meio termo, atribuindo-nos parte da responsabilidade e creditando ao Destino aquelas ocorrências imprevistas.
Quanto a mim, acho, sim, que existe muita coisa já determinada, mas não creio que seja inalterável. Todos nós cometemos erros e deslizes, porém sempre se pode tentar fazer algo a respeito. Se assim não fosse, como iríamos evoluir? Se Deus nos criasse com um roteiro pré-definido, de que valeria nos empenharmos tanto para vencer um vício, por exemplo? Nós iríamos vencê-lo ou não, de acordo com o que estivesse estipulado, e ponto final. Não teríamos mérito algum por nossas "conquistas" nem poderíamos ser culpados por nossos "erros", e tanto aquelas quanto estes não seriam nossos.
Iremos todos responder por nossos atos, mais hoje, mais amanhã. Seja porque nos esforçarmos demais, lutando pra mudar, ou simplesmente porque deixamos correr solto, estacionando no tempo e no espaço. Como diz meu pai, "o que nos cabe, nos pertence".
O Destino é a gente que faz. Seja no Ontem, preparando os eventos dessa vida; seja no Agora, vivenciando o dia a dia ou lançando as bases da existência futura.
Cada um de nós, galga a montanha ou cava o próprio buraco. Cada um de nós e mais ninguém.


                                                                                                               Pense nisso.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Invisibilidade

Para começar, leia um texto de Rubem Braga. Daqui a pouco, a gente continua.


O PADEIRO


          " Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais de véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto, não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
          Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os  moradores, avisava gritando:
          - Não é ninguém, é o padeiro!
          Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?
          "Então você não é ninguém?"
          Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas  vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...
          Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como o pão saído do forno.
          Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre: "não é ninguém, é o padeiro!"
          E assobiava pelas escadas." 
(Rubem Braga - Para Gostar de Ler - volume 1 - págs. 63/64)

Pois é .  O padeiro não é ninguém, o jornalista em início de carreira não é ninguém, o lixeiro não é ninguém, o carteiro, a recepcionista, o porteiro... Vivemos num mundo de "ninguéns", onde mais vale a aparência, a grife ostensivamente esfregada em nossos rostos, os ditames da moda, as últimas da tecnologia.
Mas, como ficaria o mundo sem o valioso trabalho de tantos padeiros, jornalistas, lixeiros, carteiros (mesmo em tempos de e-mail e Facebook, sempre existem as encomendas, que em épocas como essa, principalmente, super lotam as agências com  a recomendação expressa de serem entregues antes do Natal. E ai do infeliz carteiro, que vai pelas ruas encurvado sob pesadas sacolas ou tem de apelar para uma escolta motorizada a fim de não ser "aliviado" de sua carga - para os espertos de plantão, o Natal vai de janeiro a dezembro, mas o fim do ano é sempre mais rentável), recepcionistas e porteiros? Quem, em sã consciência, pode afirmar que a atividade dessas classes é menos importante que a de um médico ou advogado? Sim , porque se esses desempenham funções importantes quanto à manutenção da vida e direitos da população, aqueles também não fazem por menos. Afinal, o que seria da saúde e bem-estar do povo em meio ao lixo, por exemplo? E quantos de nós se sujeitariam a encarar tal tarefa? Correr a toda atrás de um caminhão de cheiro forte, debaixo de sol e chuva, encarando buracos e cachorros é para poucos, acredite! Então, da próxima vez que o seu cérebro engendrar aquele pensamentozinho mequetrefe - "não é ninguém, é só o lixeiro (carteiro, padeiro, etc.)" - mande-o calar a boca e agradeça a Deus a existência de todos esses valorosos  "ninguéns" sem cujos préstimos nenhum de nós pode viver.
Até porque, se ainda não te contaram, saiba que você também não é ninguém. Duvida? Então faça o teste: entre numa loja qualquer, especialmente as de eletrônicos, e tente pedir informações. Tudo o o que você vai conseguir, com um pouco de sorte,  serão respostas monossilábicas e um rápido relancear de olhos do vendedor, mais preocupado em esfregar o seu precioso Smartphone e navegar pelas redes sociais do que em realizar uma venda, embora seja justamente isso que garante o pão de cada dia na sua mesa. Dedos ávidos, ele os passará seguidamente naquela pequena tela num caso de amor explícito, como se ali fosse encontrar  respostas às questões mais cruciais da existência terrena; escarafunchando as últimas postagens e produzindo as próprias, como se não houvesse nada além e toda a história da humanidade se resumisse unicamente ao minúsculo e hipnotizante aparelhinho em suas mãos, ele desafiará todos os limites para demonstrar sua capacidade inata de ser o primeiro a opinar sobre qualquer assunto, não importando se alguém o aguarda do outro lado do balcão para ter também o privilégio de adentrar o mundo digital.  E fique esperto, porque chegará o dia em que teremos que nos desculpar por atrapalhar o sacrossanto navegar com nossas indagações inúteis...
A vida é assim: estamos,  todos, nos tornando invisíveis. Dia a dia reduzidos a números, senhas, apelidos sem rosto num mundo cada vez mais virtual e distante, que condena à solidão inclusive quem habita na mesma casa - a situação tantas vezes ridicularizada em humorísticos, onde a família reunida para o almoço não conversa, restringindo sua comunicação às teclagens, rolagens de tela e curtidas no Face e no Insta estão muito mais próximas do que poderíamos imaginar. Num mundo globalizado, que exclui os "analfabetos digitais" sem dó, estamos nos tornando hamsters, cada qual na sua gaiolinha, girando indefinidamente sem chegar a lugar algum.
A espécie que se declarou dominante tornou-se subjugada. Triste fim.


                                                                                                          Pense nisso.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mais um Final

Na última sexta-feira, 01/11, terminou mais uma novela. Sangue Bom trouxe ao público o mundinho podre da fama, onde tudo - ou quase - é ilusão e  armação. De romances a brigas, de filhos a relações sociais, tudo se compra e se vende em nome da fama, dinheiro e poder. Desde que o mundo é mundo, nada mais natural que vender a própria alma em nome do reconhecimento, da fuga do anonimato, que nos iguala e, por vezes, nos define - afinal, Caim matou Abel não apenas por ciúmes, mas por achar que seria o favorito, inclusive ao olhos do Senhor, caso o irmão deixasse de existir.
Não tivemos milhares de casamentos e bebês, porém, não fugimos do nauseante happy end coletivo, onde todas as metades das laranjas se encontram (até quem nunca sequer se esbarrou durante a trama acaba "se achando") - só fugiu à regra a personagem da Regiane Alves, que ficou sozinha na praia, "renascida", e foi bom ver que ao menos uma pessoa não precisou de um par para ser feliz.
 Os casais gays, como de hábito, mostrados de modo bastante superficial, seja por questões de ética ou de decoro - a velha desculpa de que o telespectador não está preparado para ver maiores "arroubos" em cena já gastou por excesso de uso. Se até Leonardo DiCaprio beijou outro cara em cena (Total Eclipse - 1995), e de um jeito muito mais convincente do que o encenado com a Kate Winslet em Titanic, e vai beijar novamente em seu novo filme (J. Edgar), qual seria o problema de se mostrar um casal gay de fato e de direito? O que tem de tão ofensivo no amor entre duas pessoas do mesmo sexo? Acho que os homossexuais deviam exigir um tratamento mais realista , ou então, que não sejam mais mostrados em enredos conservadores-moralistas, onde o gay é apresentado como uma caricatura de mulher ou tratado como um ser "sensível demais", com terríveis problemas de adaptação. O pior ficou por conta da "regeneração" do gays da terceira idade, para os quais foram providenciadas "namoradas". Cura gay, de novo, não!
Quanto ao final em si, o Bento tinha que ter ficado com  Malu e o insosso do Maurício que se arranjasse com a mau caráter da Amora mas, como era de se esperar, mesmo essa pérfida criatura, que armou mil e tantas, chantageou, iludiu, fez e aconteceu teve o seu final feliz (no país da impunidade, até em novela os vilões saem por cima. Já que é utopia, mentirinha, faz-de-conta, por que não punir os culpados ao menos na ficção? Seria bom ver os malvados se estrepando, pra variar, né?), mostrando o quanto o comportamento deturpado de alguém pode ser creditado a fatores externos. A it girl acusou a mãe adotiva, Bárbara Ellen (Giulia Gam, brilhante, alternando momentos de puro drama com a mais escrachada comédia), de ser a responsável por seus desvios de conduta que a levaram a tantos atos condenáveis, e eu admito que somos todos produtos do meio em que vivemos, mas a nossa índole é que conta acima de tudo. Creditar aos outros as nossas falhas é muito cômodo, mas não dá pra manter o teatro pela eternidade afora. Amora, ambiciosa e insensível, com um umbigo do tamanho de Júpiter,  merecia amargar uma prisão bem fashion, junto com a toupeira da Socorro, única a pagar por todas as falcatruas, incluindo as da sua deusa.
Marco Pigossi foi muito bem no papel do galã, mas masoquismo chegou ali e parou, hein? O cara passou a novela inteira, incluindo o último capítulo, dizendo pra Amora que a história entre eles havia acabado e ficou com a dita cuja mesmo assim??? "Ah, ela se regenerou depois da morte da irmã  e merecia ficar com o amor de sua vida, porque se tornou digna dele..." Me poupe! A lacraia da Amoríssima só não foi pior porque era uma só! Por que o belo não ficou só, como a Renata? Ou com outra pessoa qualquer? Por que não roubou a Charlene pra ele? E que tal fazê-lo se apaixonar pelo Vitinho ou pela Carmita Lancaster? O Bento tinha que ficar com a Malu e ponto. Quando vier a reprise no Vale a Pena Ver de Novo, espero que coloquem o final alternativo, onde o casal do bem fica junto, "para a nossa alegria"!
Agora, uma interpretação que chamou a atenção foi a de Humberto Carrão (aliás, "carrão" mesmo,  com todos os opcionais de fábrica: air bag duplo, faróis de xênon, trio elétrico, teto solar, freios ABS, GPS, DVD... Gente, aquilo é praticamente uma limusine,  principalmente com aquela barba por fazer e o seu sorriso devastador! Ah, se eu tivesse meus 20 anos, poderia até dizer "ê, lá em casa"...), que depois de encarnar o galã e até o príncipe encantado (e encantador!) na novela das Empreguetes, mostrou que sabe interpretar de fato ao viver o bad boy Fabinho. Valeu a pena ver a trajetória do personagem, que de malandro-a-fim-de-se-dar-bem virou gente boa ao encontrar o amor nos braços de quem menos esperava. Os atores costumam dizer que fazer o vilão é sempre mais divertido, porque eles podem ousar mais (afinal, "os bons meninos vão para o céu e os maus vão para onde quiserem"). Humberto Carrão certamente se divertiu; Sophie Charlotte poderia ter se divertido um pouquinho mais.
Enfim, o fim, mais uma vez. E que venham novos enredos (novos, por favor), novos personagens, novos ares. Que a vida seja imitada pela arte, com respeito, e representada tal qual se nos apresenta, sem o ranço do preconceito e do final eternamente feliz, que todos almejamos, mas nem sempre é possível.

                                                                                                       Pense nisso.
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