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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Invisibilidade

Para começar, leia um texto de Rubem Braga. Daqui a pouco, a gente continua.


O PADEIRO


          " Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais de véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto, não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
          Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os  moradores, avisava gritando:
          - Não é ninguém, é o padeiro!
          Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?
          "Então você não é ninguém?"
          Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas  vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...
          Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como o pão saído do forno.
          Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre: "não é ninguém, é o padeiro!"
          E assobiava pelas escadas." 
(Rubem Braga - Para Gostar de Ler - volume 1 - págs. 63/64)

Pois é .  O padeiro não é ninguém, o jornalista em início de carreira não é ninguém, o lixeiro não é ninguém, o carteiro, a recepcionista, o porteiro... Vivemos num mundo de "ninguéns", onde mais vale a aparência, a grife ostensivamente esfregada em nossos rostos, os ditames da moda, as últimas da tecnologia.
Mas, como ficaria o mundo sem o valioso trabalho de tantos padeiros, jornalistas, lixeiros, carteiros (mesmo em tempos de e-mail e Facebook, sempre existem as encomendas, que em épocas como essa, principalmente, super lotam as agências com  a recomendação expressa de serem entregues antes do Natal. E ai do infeliz carteiro, que vai pelas ruas encurvado sob pesadas sacolas ou tem de apelar para uma escolta motorizada a fim de não ser "aliviado" de sua carga - para os espertos de plantão, o Natal vai de janeiro a dezembro, mas o fim do ano é sempre mais rentável), recepcionistas e porteiros? Quem, em sã consciência, pode afirmar que a atividade dessas classes é menos importante que a de um médico ou advogado? Sim , porque se esses desempenham funções importantes quanto à manutenção da vida e direitos da população, aqueles também não fazem por menos. Afinal, o que seria da saúde e bem-estar do povo em meio ao lixo, por exemplo? E quantos de nós se sujeitariam a encarar tal tarefa? Correr a toda atrás de um caminhão de cheiro forte, debaixo de sol e chuva, encarando buracos e cachorros é para poucos, acredite! Então, da próxima vez que o seu cérebro engendrar aquele pensamentozinho mequetrefe - "não é ninguém, é só o lixeiro (carteiro, padeiro, etc.)" - mande-o calar a boca e agradeça a Deus a existência de todos esses valorosos  "ninguéns" sem cujos préstimos nenhum de nós pode viver.
Até porque, se ainda não te contaram, saiba que você também não é ninguém. Duvida? Então faça o teste: entre numa loja qualquer, especialmente as de eletrônicos, e tente pedir informações. Tudo o o que você vai conseguir, com um pouco de sorte,  serão respostas monossilábicas e um rápido relancear de olhos do vendedor, mais preocupado em esfregar o seu precioso Smartphone e navegar pelas redes sociais do que em realizar uma venda, embora seja justamente isso que garante o pão de cada dia na sua mesa. Dedos ávidos, ele os passará seguidamente naquela pequena tela num caso de amor explícito, como se ali fosse encontrar  respostas às questões mais cruciais da existência terrena; escarafunchando as últimas postagens e produzindo as próprias, como se não houvesse nada além e toda a história da humanidade se resumisse unicamente ao minúsculo e hipnotizante aparelhinho em suas mãos, ele desafiará todos os limites para demonstrar sua capacidade inata de ser o primeiro a opinar sobre qualquer assunto, não importando se alguém o aguarda do outro lado do balcão para ter também o privilégio de adentrar o mundo digital.  E fique esperto, porque chegará o dia em que teremos que nos desculpar por atrapalhar o sacrossanto navegar com nossas indagações inúteis...
A vida é assim: estamos,  todos, nos tornando invisíveis. Dia a dia reduzidos a números, senhas, apelidos sem rosto num mundo cada vez mais virtual e distante, que condena à solidão inclusive quem habita na mesma casa - a situação tantas vezes ridicularizada em humorísticos, onde a família reunida para o almoço não conversa, restringindo sua comunicação às teclagens, rolagens de tela e curtidas no Face e no Insta estão muito mais próximas do que poderíamos imaginar. Num mundo globalizado, que exclui os "analfabetos digitais" sem dó, estamos nos tornando hamsters, cada qual na sua gaiolinha, girando indefinidamente sem chegar a lugar algum.
A espécie que se declarou dominante tornou-se subjugada. Triste fim.


                                                                                                          Pense nisso.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mais um Final

Na última sexta-feira, 01/11, terminou mais uma novela. Sangue Bom trouxe ao público o mundinho podre da fama, onde tudo - ou quase - é ilusão e  armação. De romances a brigas, de filhos a relações sociais, tudo se compra e se vende em nome da fama, dinheiro e poder. Desde que o mundo é mundo, nada mais natural que vender a própria alma em nome do reconhecimento, da fuga do anonimato, que nos iguala e, por vezes, nos define - afinal, Caim matou Abel não apenas por ciúmes, mas por achar que seria o favorito, inclusive ao olhos do Senhor, caso o irmão deixasse de existir.
Não tivemos milhares de casamentos e bebês, porém, não fugimos do nauseante happy end coletivo, onde todas as metades das laranjas se encontram (até quem nunca sequer se esbarrou durante a trama acaba "se achando") - só fugiu à regra a personagem da Regiane Alves, que ficou sozinha na praia, "renascida", e foi bom ver que ao menos uma pessoa não precisou de um par para ser feliz.
 Os casais gays, como de hábito, mostrados de modo bastante superficial, seja por questões de ética ou de decoro - a velha desculpa de que o telespectador não está preparado para ver maiores "arroubos" em cena já gastou por excesso de uso. Se até Leonardo DiCaprio beijou outro cara em cena (Total Eclipse - 1995), e de um jeito muito mais convincente do que o encenado com a Kate Winslet em Titanic, e vai beijar novamente em seu novo filme (J. Edgar), qual seria o problema de se mostrar um casal gay de fato e de direito? O que tem de tão ofensivo no amor entre duas pessoas do mesmo sexo? Acho que os homossexuais deviam exigir um tratamento mais realista , ou então, que não sejam mais mostrados em enredos conservadores-moralistas, onde o gay é apresentado como uma caricatura de mulher ou tratado como um ser "sensível demais", com terríveis problemas de adaptação. O pior ficou por conta da "regeneração" do gays da terceira idade, para os quais foram providenciadas "namoradas". Cura gay, de novo, não!
Quanto ao final em si, o Bento tinha que ter ficado com  Malu e o insosso do Maurício que se arranjasse com a mau caráter da Amora mas, como era de se esperar, mesmo essa pérfida criatura, que armou mil e tantas, chantageou, iludiu, fez e aconteceu teve o seu final feliz (no país da impunidade, até em novela os vilões saem por cima. Já que é utopia, mentirinha, faz-de-conta, por que não punir os culpados ao menos na ficção? Seria bom ver os malvados se estrepando, pra variar, né?), mostrando o quanto o comportamento deturpado de alguém pode ser creditado a fatores externos. A it girl acusou a mãe adotiva, Bárbara Ellen (Giulia Gam, brilhante, alternando momentos de puro drama com a mais escrachada comédia), de ser a responsável por seus desvios de conduta que a levaram a tantos atos condenáveis, e eu admito que somos todos produtos do meio em que vivemos, mas a nossa índole é que conta acima de tudo. Creditar aos outros as nossas falhas é muito cômodo, mas não dá pra manter o teatro pela eternidade afora. Amora, ambiciosa e insensível, com um umbigo do tamanho de Júpiter,  merecia amargar uma prisão bem fashion, junto com a toupeira da Socorro, única a pagar por todas as falcatruas, incluindo as da sua deusa.
Marco Pigossi foi muito bem no papel do galã, mas masoquismo chegou ali e parou, hein? O cara passou a novela inteira, incluindo o último capítulo, dizendo pra Amora que a história entre eles havia acabado e ficou com a dita cuja mesmo assim??? "Ah, ela se regenerou depois da morte da irmã  e merecia ficar com o amor de sua vida, porque se tornou digna dele..." Me poupe! A lacraia da Amoríssima só não foi pior porque era uma só! Por que o belo não ficou só, como a Renata? Ou com outra pessoa qualquer? Por que não roubou a Charlene pra ele? E que tal fazê-lo se apaixonar pelo Vitinho ou pela Carmita Lancaster? O Bento tinha que ficar com a Malu e ponto. Quando vier a reprise no Vale a Pena Ver de Novo, espero que coloquem o final alternativo, onde o casal do bem fica junto, "para a nossa alegria"!
Agora, uma interpretação que chamou a atenção foi a de Humberto Carrão (aliás, "carrão" mesmo,  com todos os opcionais de fábrica: air bag duplo, faróis de xênon, trio elétrico, teto solar, freios ABS, GPS, DVD... Gente, aquilo é praticamente uma limusine,  principalmente com aquela barba por fazer e o seu sorriso devastador! Ah, se eu tivesse meus 20 anos, poderia até dizer "ê, lá em casa"...), que depois de encarnar o galã e até o príncipe encantado (e encantador!) na novela das Empreguetes, mostrou que sabe interpretar de fato ao viver o bad boy Fabinho. Valeu a pena ver a trajetória do personagem, que de malandro-a-fim-de-se-dar-bem virou gente boa ao encontrar o amor nos braços de quem menos esperava. Os atores costumam dizer que fazer o vilão é sempre mais divertido, porque eles podem ousar mais (afinal, "os bons meninos vão para o céu e os maus vão para onde quiserem"). Humberto Carrão certamente se divertiu; Sophie Charlotte poderia ter se divertido um pouquinho mais.
Enfim, o fim, mais uma vez. E que venham novos enredos (novos, por favor), novos personagens, novos ares. Que a vida seja imitada pela arte, com respeito, e representada tal qual se nos apresenta, sem o ranço do preconceito e do final eternamente feliz, que todos almejamos, mas nem sempre é possível.

                                                                                                       Pense nisso.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Essencial

                                                                                                                  
Outro dia estava eu, bela e folgada, na sala de espera de um AME, aguardando minha vez para ir ao guichê, quando uma senhora sentou-se ao meu lado e disparou: “ – Você tem celular?” Surpresa e, confesso, desconfortável com tal pergunta (afinal, com tantos golpes e crimes que se vê por aí em nossos dias, é o tipo de questionamento capaz de, no mínimo, pôr não uma pulga, mas um ornitorrinco atrás de cada orelha! E se ela quisesse fazer uma chamadinha básica pra Tailândia? Ou pior, se estivesse a fim de gastar os mil minutos pra “estreitar a relação”?), respondi que não e ela retorquiu: “ – Que pena. Eu precisava saber as horas.” Mais tranquila, puxei a manga do moletom, mostrando o relógio de pulso: “ – Por isso não. As horas eu posso lhe dizer.”
Houve um tempo em que a pergunta correta seria “ - Você tem horas?” e não celular. Afinal, era disso que se tratava. Ela não queria saber se eu possuo um aparelho bonitinho, cheio de adesivos fofinhos, ou um smartphone último tipo, com acesso às famigeradas redes sociais, GPS, Bluetooth... Aquela senhora apenas e tão somente desejava saber as horas.
Então, quando foi que o relógio, esse meu companheiro inseparável, outrora item de suma importância, perdeu seu lugar de destaque para o celular? A pergunta, com efeito, tinha razão de ser. Basta uma rápida olhada em qualquer lugar para se constatar o óbvio: as pessoas andam com seus celulares sempre a e na mão, pouco importando o quanto o ônibus está lotado ou se uma bolsa tipo gigante – daquelas que, mesmo não sendo um elefante, incomodam muita gente – acompanha os demais acessórios do visual. Mais que um artigo-vitrine, exposto aos olhos e cobiça alheios e capaz de matar de inveja muitas patricinhas e mauricinhos menos abonados, o celular, esse aparelhinho tão útil e misterioso com seus meandros de computador em miniatura tornou-se, efetivamente, indispensável na nossa aldeia globalizada, onde cada vez mais pessoas encontram menos orelhões (depredados, pichados, painéis de anúncios para massagens eróticas e afins ou simplesmente mudos, foi-se o tempo em que podíamos contar com um deles em momentos de aperto ou mesmo de puro love – afinal, quem nunca usou um estoque das antigas fichas para azarar uma gatinha? O povo na fila, esperando, e o sujeito ali, só no xaveco, tentando descolar uma saidinha com a mina. Amorzinho daqui, bebê dali, contando até três para os dois desligarem juntos... Ah, o amor, sempre tão incompreendido!). De crianças aos senhores de mais idade, quase todo mundo anda com o seu brinquedinho por aí. Eu disse quase porque ainda existem aqueles que são contra a tecnologia, por serem “das antigas” e não terem muita vontade – e paciência, capacidade, raciocínio, aptidão? – de aprender coisas novas ou simplesmente por julgarem que é desnecessário.
Mas, mesmo para definir o que é essencial, as tribos continuam se dividindo: se para uns o celular é indispensável, para outros é o próprio computador, ou a internet, ou as redes sociais (tem gente que alega não poder se desconectar nem para ir ao banheiro. Vai que, naqueles cinco minutinhos preciosos, alguma coisa de relevância extrema ocorre, como o fim do namoro da sua arquirrival favorita ou a estreia do novo clipe do Justin Bieber – e justo você, sempre tão antenada, foi a segunda a saber??? Como diria a doutora Lorca, “- Isso não pode!”). Amigos já não marcam encontros para um cineminha, um papo furado ou um joguinho de tranca.  A onda agora é postar fotos no Instagram ou interagir no Facebook, essa Hidra multicéfala devoradora de segredos e identidades alheias, onde todo mundo adiciona todo mundo, sem sequer perguntar quem, como ou quando, e apesar de todos os riscos fartamente divulgados semanalmente pelos jornais.  Dia chegará em que os nossos relacionamentos  serão como no filme “O Demolidor” (“Demolition Man” – 1993),  onde a Sandra Bullock põe um aparelho qualquer na cabeça do Silvester Stallone para transar com ele – segundo o filme, sal, chocolate carne e contatos corporais em geral (incluindo beijos e apertos de mão, além do sexo, claro) faziam mal aos humanos, por isso foram banidos da sociedade perfeita, mas nos esgotos rolava tudo isso e muito mais (afinal, onde houver a ordem perfeitamente estabelecida haverá também o caos para equilibrar as coisas. Não existe moeda de um lado só.).
Essencial, como certo e errado, é questão de ponto de vista. Para os chineses, é o ar que mal se respira, carregado de poluentes e fumaça; para muitos africanos, é a comida que falta na mesa enquanto tantos outros países, incluindo o nosso bom e velho Brasil, desperdiçam alimentos que dariam para encher muitas barrigas. Nossas prioridades definem aquilo que buscaremos com mais empenho. Sempre.

                                                                                                               Pense nisso.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mensagem de Otimismo

"O que mais nos incomoda é ver os nossos sonhos frustrados. Mas permanecer no desânimo não ajuda em nada para a concretização desses sonhos.  Se ficarmos assim, nem vamos em busca dos nossos sonhos, nem recuperamos o bom humor! 
Este estado de confusão, propício ao crescimento da ira, é muito perigoso. Temos de nos esforçar e não permitir que a nossa serenidade seja perturbada.
Quer estejamos vivenciando um grande sofrimento, ou já o tenhamos experimentado, não há razão para alimentarmos o sentimento de infelicidade."

Sua Santidade, o Dalai-Lama  - "O Caminho da Tranqüilidade"

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Perdas

Perda da dignidade, da hegemonia, do afeto, da posição social ou de destaque... Quantas e quais são as piores perdas para um ser humano? E para uma nação? E para um planeta? Até que ponto vale sacrificar alguma coisa para não se perder outra?
Recentemente, o jogador  Emerson Sheik do Corinthians perdeu pontos com a torcida ao postar a polêmica foto do seu "selinho" em um amigo (há quem diga, inclusive, que ele perdeu rendimento em campo depois do episódio); da mesma forma, Dilma Roussef teve queda de popularidade com medidas como a contratação de médicos estrangeiros para atender ao SUS em regiões carentes dessa mão de obra (para mim, uma medida muito salutar e bem-vinda. Afinal, se os nossos médicos só querem trabalhar nos grandes centros urbanos, por que não permitir que os colegas "de fora" atuem na periferia e em outras áreas mais afastadas e, diga-se, super necessitadas de profissionais do gênero? Bairrismo besta, pra não dizer pobre - aliás, paupérrimo!).
Como caracterizar o que é, de fato, uma perda? É aquilo que mais dói no bolso? Na alma? Na consciência? No orgulho? Ou no coração? Como entender os efeitos - por vezes, altamente nocivos - que uma perda de qualquer espécie acarreta? Teria sido algum tipo de perda o motivo para os assassinatos na Brasilândia? Talvez, até a perda da inocência?
Num mundo tão competitivo como este em que (sobre) vivemos, perder pode ser encarado não apenas como uma prova cabal de incompetência, mas também como um tipo de fardo muito pesado e incômodo, que o incauto perdedor terá que arrastar pela vida afora.
Aos perdedores inveterados, um alento: não desistam de tentar reverter essa situação, pois nunca se sabe quando a balança penderá a nosso favor.
Aos ganhadores contumazes, um conselho: fiquem atentos, porque a sorte sempre vira. O que se ganha hoje, pode ser perdido amanhã.
Hoje, 26/08, eu também sofri uma perda. Enorme, sentida, dolorosa, para nós e para ela. Minha querida Bina, o meu "môzi", meu bebê, minha hermosa nos deixou, depois de uma longa noite de agonia e sofrimento.
Apesar das diversas convulsões que minaram sua resistência a cada minuto de uma madrugada que parecia não ter mais fim, Bina se mantinha apegada à vida, com olhos vivos e brilhantes, talvez num derradeiro esforço para não perder, ela também, o que considerava importante. Infelizmente, essa batalha ela perdeu, recebendo o alívio final às 09 e pouco desta manhã pelas mãos do dr. Alex (obrigada, doutor!).
Depois de 15 anos, nossa parceria terminou, com muita dor e lágrimas para todos (Bina inclusive, que chorou nos meus braços). Saber que o sofrimento dela acabou não ajuda a diminuir o meu (não consegui parar de chorar ao longo de todo o dia, mesmo agora, enquanto faço esse registro); só o Tempo, com sua clemência, poderá trazer-me tal alívio, mas será uma cicatriz perene que nenhum Cicatricure do mundo poderá apagar. Uma ferida fadada a se transformar em saudade.
Hoje, sua ausência faz meu coração sangrar, mas eu sei que no Céu está rolando uma festa porque um dos anjos de Deus acabou de voltar...

                                                                                                             Pense nisso.



                     Vá com Deus, meu amor... Te amarei muito além do "para sempre".

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aprendendo

De todas as façanhas mais incríveis que um ser humano pode lançar mão, certamente a aceitação é a mais rara e difícil. Eu disse façanha quando deveria dizer atitude, mas aceitar um semelhante é, sim, um fato assombroso, e seria o maior ato de amor que qualquer um poderia praticar se apenas se dispusesse a isso.
Você simplesmente não consegue aceitá-lo (será que ao menos tenta?) porque é feio, gordo, burro; porque não entende a sua língua, não está no Facebook nem frequenta os lugares da moda; porque não se liga nas coisas que te agradam, não assiste a novela nem torce para o seu time (aliás, como é que o infeliz ousa dizer que não gosta de futebol, a paixão nacional - depois da bunda, claro! - que une os povos e remove montanhas? Até os pilares do preconceito e do machismo caem por terra em tempos de Copa do Mundo, quando a visão de dois homens abraçados, chorando e rolando no chão não agride a ninguém - mas, se eles fizerem o mesmo num dia comum...). Em resumo, você não o aceita apenas e tão somente porque ele faz uso do maior bem que todos nós possuímos: a sua individualidade!
Cada pessoa é única, original e inimitável, criada por Deus justamente para ser diferente. Não somos peças produzidas em série, cuspidas às dúzias por uma máquina qualquer. O legal está na diferença, na diversidade, que nos capacita de maneiras variadas para fins igualmente. Afinal, que graça teria se toda a humanidade tivesse a mesma aparência, gostasse das mesmas coisas e almejasse os mesmos objetivos? Acredite, não teríamos chegado a lugar algum, pois ninguém sonharia ou imaginaria nada diferente dos demais. Seríamos uma raça estagnada a caminho da extinção.
Você é jovem e não consegue aturar os mais velhos? É velho e não consegue entender os meninos abilolados? Está na meia idade e não se encaixa em nenhuma turma (como diz a Sandy, "é jovem pra ser velho e velho pra ser jovem"? Bem vindo ao clube! Pegue sua carteirinha na saída.)? Vai por mim: faz parte de ser humano e não há nada de errado nisso.
Além de Libras e Braille, que já passaram da hora de ser ensinadas ao povo para a verdadeira inclusão das ditas "pessoas especiais" (mais uma demagogia podre para denominar os deficientes - eu posso falar "de cadeira" a barra que a gente enfrenta, com ou sem denominação fofa, porque fui deficiente visual por vinte anos, e garanto que não há nada de especial nisso),  deveria ser matéria obrigatória nas escolas exercitar a aceitação, a tolerância e o respeito, aprendendo que o outro tem todo o direito de gostar de outras coisas, de seguir ou não os modismos passageiros, de ser como todo mundo ou completamente diferente. Não somos um cardume fadado a um destino comum e, ainda que a maioria possa seguir na mesma direção, alguns dentre nós terão jornadas brilhantes, destacando-se apesar de serem considerados exóticos, excêntricos, esquisitos ou desajustados.
Constatar que a Terra não gira em torno do seu umbigo e que ninguém nasceu para seguir seus ditames, por mais certos, bonitos e perfeitos possam ser - na opinião de quem mesmo? - faria do nosso planeta um lugar muito mais aprazível, certamente com  menos gente frustrada e, quem sabe, nos ajudaria a galgar mais de um degrau rumo à evolução.
                                                                                                                      

                                                                                                           Pense nisso.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Boas Notícias

Na última sexta-feira, 05 de Julho, o Jornal da Record trouxe duas notícias relevantes:

A primeira foi um alívio para mim. Finalmente, alguém teve a decência de pôr a mão na consciência em favor dos cães, proibindo a terrível e totalmente desnecessária mutilação de suas orelhas e rabos. A quem diga que tal barbárie é benéfica para eles, prevenindo doenças e evitando danos maiores no futuro (um criador chegou ao cúmulo de dizer que o corte das orelhas evita problemas nos ouvidos!!! Êta cartilagem poderosa, hein?), sem falar, é claro, na questão estética, exigência fundamental nos dias de hoje até para os "seres irracionais" (irracionais uma ova! Garanto que nenhum animal tem o comportamento desprezível, detestável e "desumano" que os ditos seres superiores da criação demonstram). Os pobres são obrigados a andar por aí com roupas de grife, jóias, unhas e pêlos pintados (espero que essa seja a próxima proibição, junto com a hedionda operação das amigdalas, usada para que os coitados não se manifestem. Tingir um animal, na minha opinião, é a terceira maior crueldade que se pode cometer contra esses seres indefesos, que sempre nos cumulam de amor e carinho, mesmo aos infelizes que os maltratam dessa maneira) apenas porque seus donos acham que eles gostam, precisam e desejam isso. Eu tenho uma cadelinha, meu amor de 15 anos, e ela é muito feliz sem essas frescuras medíocres de gente que certamente não tem nada melhor para fazer e tem, sim, muito dinheiro para gastar (se tá sobrando e eles não sabem o que fazer, mandem um pouco para cá que eu dou um jeito. Pode me chamar de Andrômeda, que eu parto para o sacrifício!).
Para esses mentecaptos que defendem tal crueldade com esse tipo de argumentação, só tenho uma coisa a dizer: Parem de Querer Corrigir A Obra de Deus! Ele é o Ser Supremo, perfeito e não comete erros. Se Ele achasse que os animais ficariam melhor sem rabo e com as orelhas cortadas, teria providenciado! A empáfia humana é tão grande, seu ego é tão inchado, sua visão de mundo é tão tacanha, que os infelizes acham realmente que sabem mais do que Aquele que os criou! Quanta prepotência!!! Eu sei que "a ignorância é uma bênção", mas não vamos exagerar, né?
Se as crianças humanas nascessem com rabo e orelhas compridas, quantas mães levariam seus rebentos de poucos dias ao médico para a tal "cirurgia estética"? Tá, eu sei que há muitas desvairadas por esse mundo afora preocupadas com os "ins" e "outs" da moda, que não só fariam isso como várias outras coisinhas a fim de garantir o lugar do pimpolho na sociedade que importa, mas as verdadeiras mães, cujo bem-estar dos filhos sobrepõe-se a tudo o mais, jamais concordariam com semelhante atrocidade: melhor um filho feliz abanando o rabo que um mutilado frustrado.
O que os animais em geral querem é respeito e dignidade. Eles não precisam de badulaques humanos para viver mais e/ou melhor. Não precisam de festas badaladas, roupas para diversas ocasiões (uma camisetinha básica nos dias mais frios é suficiente), títulos, nomes pomposos. O que eles realmente precisam é de cuidado e carinho. No caso dos cães, um cantinho confortável para dormir, comida (gente, não precisa ser patê importado, queijo Brie, champagne Don Perrignon: uma boa ração ou até uma comidinha caseira - especial para eles, claro - é muito bem vinda), cuidados com a saúde e, sobretudo, atenção. Os cães gostam de brincar, de latir, de correr e pular, então, se você quer de fato fazer um deles feliz, seja seu amigo.  Faça dele um companheiro, o seu companheiro. Garanto que é o melhor que se pode fazer por essas fofuras, esses anjos de quatro patas que Deus, em Sua infinita bondade, enviou para cuidar de nós. Saibamos retribuir.

A segunda notícia é interessante: a sonda Voyager 1, lançada pela NASA em 05 de Setembro de 1977 para pesquisar o sistema solar e o que houver depois dele (se houver, já que muitos dos nossos "irmãos planetários" julgam que a vida só existe aqui e, tudo o que se vê sobre o espaço na TV é filme de Hollywood, incluindo a viagem à Lua) está em vias de deixar o nosso sistema, descobrindo efetivamente o que existe além da "fronteira final".
Com uma bateria de plutônio que deve durar até 2025, a sonda terá muita coisa a relatar caso não sofra nenhum dano, o que não somente é muito instigante como também promissor, mas aí cabem algumas perguntas: será que os dados colhidos por ela ainda terão serventia quando conseguirem chegar até nós? Com a crescente evolução da tecnologia e da ciência, será que não servirão apenas como comprovação de seu funcionamento? E se os cientistas esperam encontrar vida lá fora, como poderemos saber com certeza que esta foi localizada? Será que os ETs têm continha no Facebook?
Essa notícia me remete ao filme de 1979, "Jornada nas Estrelas - O Filme" (ótimo, por sinal, mesmo sem os efeitos mirabolantes dos dias atuais), onde a equipe da Enterprise se depara com um visitante alienígena que vem à Terra em busca de seu Criador. Para a surpresa de Kirk e companhia, o tal ser nada mais é que a supostamente perdida sonda Voyager 6, encontrada e reparada por uma raça de máquinas vivas. Devidamente "turbinada", inteligente e auto-suficiente (ela adquiriu tanto conhecimento que desenvolveu consciência própria), a agora denominada V'ger, cumprindo sua programação de coletar e transmitir dados, retorna ao nosso bom e velho planetinha a fim de receber um novo código para o prosseguimento de suas pesquisas (só o verdadeiro Criador poderá lhe dar o código certo),  ameaçando destruir os incautos que se interpuserem em seu caminho (o lance mais legal da trama é a interação homem-máquina, que não só possibilita a V'ger comunicar-se através de uma andróide - cópia da navegadora Ilia, cuja raça agora me foge - como também promove uma fusão entre ela e um humano - seu amor de longa data, Decker, atual capitão da Enterprise, que se apresenta como sendo o Criador e insere a sequência final correta, o que não apenas encerra a ameaça como também cria uma nova forma de vida através de Ilia/V'ger e seu amado, transportando-os para uma outra dimensão). Se bateu a curiosidade, procure na rede e assista. Vale a pena.
Talvez eu já não esteja por aqui quando essa sonda fizer sua última transmissão; talvez, eu não descubra, como Mulder e Scully,  que "a verdade está lá fora"; talvez, eu nunca tenha o prazer de saber que a vida extraterrestre é uma realidade nem possa ver um OVNI ao vivo e a cores, mas nada disso tem importância. O que conta, no fim de tudo, é que o homem desviou os olhos do próprio umbigo e está olhando para algo mais além de si mesmo e do mundo que o cerca. Certamente, esse é um grande passo rumo à evolução.



                                                                                                                 Pense nisso.
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