Na última sexta-feira, 01/11, terminou mais uma novela. Sangue Bom trouxe ao público o mundinho podre da fama, onde tudo - ou quase - é ilusão e armação. De romances a brigas, de filhos a relações sociais, tudo se compra e se vende em nome da fama, dinheiro e poder. Desde que o mundo é mundo, nada mais natural que vender a própria alma em nome do reconhecimento, da fuga do anonimato, que nos iguala e, por vezes, nos define - afinal, Caim matou Abel não apenas por ciúmes, mas por achar que seria o favorito, inclusive ao olhos do Senhor, caso o irmão deixasse de existir.
Não tivemos milhares de casamentos e bebês, porém, não fugimos do nauseante happy end coletivo, onde todas as metades das laranjas se encontram (até quem nunca sequer se esbarrou durante a trama acaba "se achando") - só fugiu à regra a personagem da Regiane Alves, que ficou sozinha na praia, "renascida", e foi bom ver que ao menos uma pessoa não precisou de um par para ser feliz.
Os casais gays, como de hábito, mostrados de modo bastante superficial, seja por questões de ética ou de decoro - a velha desculpa de que o telespectador não está preparado para ver maiores "arroubos" em cena já gastou por excesso de uso. Se até Leonardo DiCaprio beijou outro cara em cena (Total Eclipse - 1995), e de um jeito muito mais convincente do que o encenado com a Kate Winslet em Titanic, e vai beijar novamente em seu novo filme (J. Edgar), qual seria o problema de se mostrar um casal gay de fato e de direito? O que tem de tão ofensivo no amor entre duas pessoas do mesmo sexo? Acho que os homossexuais deviam exigir um tratamento mais realista , ou então, que não sejam mais mostrados em enredos conservadores-moralistas, onde o gay é apresentado como uma caricatura de mulher ou tratado como um ser "sensível demais", com terríveis problemas de adaptação. O pior ficou por conta da "regeneração" do gays da terceira idade, para os quais foram providenciadas "namoradas". Cura gay, de novo, não!
Quanto ao final em si, o Bento tinha que ter ficado com Malu e o insosso do Maurício que se arranjasse com a mau caráter da Amora mas, como era de se esperar, mesmo essa pérfida criatura, que armou mil e tantas, chantageou, iludiu, fez e aconteceu teve o seu final feliz (no país da impunidade, até em novela os vilões saem por cima. Já que é utopia, mentirinha, faz-de-conta, por que não punir os culpados ao menos na ficção? Seria bom ver os malvados se estrepando, pra variar, né?), mostrando o quanto o comportamento deturpado de alguém pode ser creditado a fatores externos. A it girl acusou a mãe adotiva, Bárbara Ellen (Giulia Gam, brilhante, alternando momentos de puro drama com a mais escrachada comédia), de ser a responsável por seus desvios de conduta que a levaram a tantos atos condenáveis, e eu admito que somos todos produtos do meio em que vivemos, mas a nossa índole é que conta acima de tudo. Creditar aos outros as nossas falhas é muito cômodo, mas não dá pra manter o teatro pela eternidade afora. Amora, ambiciosa e insensível, com um umbigo do tamanho de Júpiter, merecia amargar uma prisão bem fashion, junto com a toupeira da Socorro, única a pagar por todas as falcatruas, incluindo as da sua deusa.
Marco Pigossi foi muito bem no papel do galã, mas masoquismo chegou ali e parou, hein? O cara passou a novela inteira, incluindo o último capítulo, dizendo pra Amora que a história entre eles havia acabado e ficou com a dita cuja mesmo assim??? "Ah, ela se regenerou depois da morte da irmã e merecia ficar com o amor de sua vida, porque se tornou digna dele..." Me poupe! A lacraia da Amoríssima só não foi pior porque era uma só! Por que o belo não ficou só, como a Renata? Ou com outra pessoa qualquer? Por que não roubou a Charlene pra ele? E que tal fazê-lo se apaixonar pelo Vitinho ou pela Carmita Lancaster? O Bento tinha que ficar com a Malu e ponto. Quando vier a reprise no Vale a Pena Ver de Novo, espero que coloquem o final alternativo, onde o casal do bem fica junto, "para a nossa alegria"!
Agora, uma interpretação que chamou a atenção foi a de Humberto Carrão (aliás, "carrão" mesmo, com todos os opcionais de fábrica: air bag duplo, faróis de xênon, trio elétrico, teto solar, freios ABS, GPS, DVD... Gente, aquilo é praticamente uma limusine, principalmente com aquela barba por fazer e o seu sorriso devastador! Ah, se eu tivesse meus 20 anos, poderia até dizer "ê, lá em casa"...), que depois de encarnar o galã e até o príncipe encantado (e encantador!) na novela das Empreguetes, mostrou que sabe interpretar de fato ao viver o bad boy Fabinho. Valeu a pena ver a trajetória do personagem, que de malandro-a-fim-de-se-dar-bem virou gente boa ao encontrar o amor nos braços de quem menos esperava. Os atores costumam dizer que fazer o vilão é sempre mais divertido, porque eles podem ousar mais (afinal, "os bons meninos vão para o céu e os maus vão para onde quiserem"). Humberto Carrão certamente se divertiu; Sophie Charlotte poderia ter se divertido um pouquinho mais.
Enfim, o fim, mais uma vez. E que venham novos enredos (novos, por favor), novos personagens, novos ares. Que a vida seja imitada pela arte, com respeito, e representada tal qual se nos apresenta, sem o ranço do preconceito e do final eternamente feliz, que todos almejamos, mas nem sempre é possível.
Pense nisso.