Outro dia estava eu, bela e folgada, na sala de espera de um
AME, aguardando minha vez para ir ao guichê, quando uma senhora sentou-se ao
meu lado e disparou: “ – Você tem celular?” Surpresa e, confesso,
desconfortável com tal pergunta (afinal, com tantos golpes e crimes que se vê por
aí em nossos dias, é o tipo de questionamento capaz de, no mínimo, pôr não uma
pulga, mas um ornitorrinco atrás de cada orelha! E se ela quisesse fazer uma
chamadinha básica pra Tailândia? Ou pior, se estivesse a fim de gastar os mil
minutos pra “estreitar a relação”?), respondi que não e ela retorquiu: “ – Que
pena. Eu precisava saber as horas.” Mais tranquila, puxei a manga do moletom,
mostrando o relógio de pulso: “ – Por isso não. As horas eu posso lhe dizer.”
Houve um tempo em que a pergunta correta seria “ - Você tem horas?” e não celular. Afinal, era disso
que se tratava. Ela não queria saber se eu possuo um aparelho bonitinho, cheio
de adesivos fofinhos, ou um smartphone último tipo, com acesso às famigeradas
redes sociais, GPS, Bluetooth... Aquela senhora apenas e tão somente desejava
saber as horas.
Então, quando foi que o relógio, esse meu companheiro
inseparável, outrora item de suma importância, perdeu seu lugar de destaque
para o celular? A pergunta, com efeito, tinha razão de ser. Basta uma rápida
olhada em qualquer lugar para se constatar o óbvio: as pessoas andam com seus
celulares sempre a e na mão, pouco importando o quanto o
ônibus está lotado ou se uma bolsa tipo gigante – daquelas que, mesmo não sendo
um elefante, incomodam muita gente – acompanha os demais acessórios do visual.
Mais que um artigo-vitrine, exposto aos olhos e cobiça alheios e capaz de matar
de inveja muitas patricinhas e mauricinhos menos abonados, o celular, esse
aparelhinho tão útil e misterioso com seus meandros de computador em miniatura
tornou-se, efetivamente, indispensável na nossa aldeia globalizada, onde cada
vez mais pessoas encontram menos orelhões (depredados, pichados, painéis de
anúncios para massagens eróticas e afins ou simplesmente mudos, foi-se o tempo
em que podíamos contar com um deles em momentos de aperto ou mesmo de puro love
– afinal, quem nunca usou um estoque das antigas fichas para azarar uma
gatinha? O povo na fila, esperando, e o sujeito ali, só no xaveco, tentando
descolar uma saidinha com a mina. Amorzinho daqui, bebê dali, contando até três
para os dois desligarem juntos... Ah, o amor, sempre tão incompreendido!). De
crianças aos senhores de mais idade, quase todo mundo anda com o seu
brinquedinho por aí. Eu disse quase porque
ainda existem aqueles que são contra a tecnologia, por serem “das antigas” e
não terem muita vontade – e paciência, capacidade, raciocínio, aptidão? – de
aprender coisas novas ou simplesmente por julgarem que é desnecessário.
Mas, mesmo para definir o que é essencial, as tribos
continuam se dividindo: se para uns o celular é indispensável, para outros é o
próprio computador, ou a internet, ou as redes sociais (tem gente que alega não
poder se desconectar nem para ir ao banheiro. Vai que, naqueles cinco
minutinhos preciosos, alguma coisa de relevância extrema ocorre, como o fim do
namoro da sua arquirrival favorita ou a estreia do novo clipe do Justin Bieber
– e justo você, sempre tão antenada, foi a segunda a saber??? Como diria a
doutora Lorca, “- Isso não pode!”). Amigos já não marcam encontros para um
cineminha, um papo furado ou um joguinho de tranca. A onda agora é postar fotos no Instagram ou interagir
no Facebook, essa Hidra multicéfala devoradora de segredos e identidades
alheias, onde todo mundo adiciona todo mundo, sem sequer perguntar quem, como
ou quando, e apesar de todos os riscos fartamente divulgados semanalmente pelos
jornais. Dia chegará em que os nossos
relacionamentos serão como no filme “O
Demolidor” (“Demolition Man” – 1993), onde
a Sandra Bullock põe um aparelho qualquer na cabeça do Silvester Stallone para
transar com ele – segundo o filme, sal, chocolate carne e contatos corporais em
geral (incluindo beijos e apertos de mão, além do sexo, claro) faziam mal aos
humanos, por isso foram banidos da sociedade perfeita, mas nos esgotos rolava
tudo isso e muito mais (afinal, onde houver a ordem perfeitamente estabelecida
haverá também o caos para equilibrar as coisas. Não existe moeda de um lado
só.).
Essencial, como certo e errado, é questão de ponto de vista.
Para os chineses, é o ar que mal se respira, carregado de poluentes e fumaça; para
muitos africanos, é a comida que falta na mesa enquanto tantos outros países,
incluindo o nosso bom e velho Brasil, desperdiçam alimentos que dariam para
encher muitas barrigas. Nossas prioridades definem aquilo que buscaremos com
mais empenho. Sempre.
Pense nisso.